
ON THE RECORD
O Donggwon é um personagem original e fictício criado para SOHOUHQS escrito e amado por KORE. Talvez seu desenvolvimento explore temas sensíveis sempre com os triggers bem sinalizados. Todos os POVs listados terão os gatilhos indicados no começo, a leitura é por sua conta e risco.
POVS
OO1: O QUE UM CONSULTOR DE BRANDING FAZ EM UMA GANGUE?
TRIGGER WARNING: Linguagem imprópria.
O expediente de Han Donggwon havia terminado às dez da noite.Oficialmente, ele deveria estar encerrando mais um dia de trabalho como consultor de branding no Sekai Silent Floor. Durante o dia inteiro, havia atendido clientes, revisado alguns contratos e discutido estratégias de posicionamento para uma empresa que pretendia entrar no mercado europeu e asiático.Foi um dia cansativo e já passava das dez e meia quando deixou o andar do Nexus, vestindo o mesmo sobretudo escuro que usava durante o expediente. Não carregava computador nem documentos da consultoria, seu telefone pessoal estava no bolso interno do casaco, enquanto um segundo aparelho, menor e sem qualquer identificação, permanecia desligado até aquele momento dentro do seu carro.Encostou-se no banco e respirou fundo, estava podre de sono, imundo de preguiça, mas já sabia o que lhe esperava quando abriu o porta-luvas e ligou seu segundo celular. Uma mensagem já lhe aguardava na barra de notificações:“Beco das Lanternas. 23h00.”Ele já sabia sobre o que se tratava aquele encontro, então apenas marcou o endereço e o horário e apagou a mensagem. Donggwon era o responsável por lidar com tudo que envolvesse dinheiro dentro da organização, era quem mantinha informações de pessoas importantes e fazia o trabalho mais “limpo” na gangue. Naquela noite, precisava recuperar uma dívida que havia sido desviada por um intermediário ligado a uma pequena operação financeira da máfia coreana. Não era uma cobrança comum, o dinheiro deveria ter chegado à Kkangpae dois dias antes, mas desapareceu no caminho.A névoa londrina havia começado a engrossar e as luzes cianas do complexo refletiam no asfalto molhado enquanto, alguns metros adiante, o brilho vermelho das lanternas anunciava a entrada do Beco das Lanternas. Donggwon caminhou pelo beco sem pressa, sem esconder seu rosto, respeitava um pouco a neutralidade daquele território e fazia parte da própria segurança da sua operação.Entrou em um pequeno restaurante que ainda permanecia aberto apesar do horário. O proprietário reconheceu Donggwon assim que o coreano entrou no local, ele apenas lhe deu um aceno de cabeça, maneando para o fundo do restaurante, onde um homem já parecia estar lhe esperando.“Você demorou.”— Eu estava trabalhando.“Ainda insiste nessa história de empresário?”— Não é uma história. Minha empresa é real, meus clientes são reais e o dinheiro que recebo é bastante real. Mas o que não é real é isso aqui.Um outro rapaz foi até a mesa e jogou uma pasta sobre a madeira. Deixou que o homem sentado à sua frente abrisse e analisasse todos os papeis ali dentro— O que não é real é a versão que vocês receberam sobre o desaparecimento dessa dívida. O dinheiro nunca saiu da rede, foi desviado antes de chegar ao caixa da Kkangpae. E antes que me pergunte quem fez, ele já está listado entre os documentos, foi um dos seus. Ele criou três empresas de fachada nos últimos seis meses e todas parecem independentes, mas estão registradas por pessoas ligadas à mesma família. O dinheiro entrava para uma empresa, era transferido para outra e terminava em uma conta privada em Londres.“…Você tem certeza?”— Porra, Kwon, tá tudo aí na sua frente e você está me perguntando se tenho certeza? Eu não teria vindo até aqui se não tivesse.“Onde está o dinheiro agora?”— Em uma conta ligada a um fundo de investimento do Nexus. Amanhã cedo eu envio o restante das informações ao Chairman.“E o homem que roubou o dinheiro?”— Isso já vai ser decidido por quem está acima de mim.Donggwon se levantou e saiu do restaurante, voltando para o Beco das Lanternas. As lanternas vermelhas iluminavam seu rosto enquanto, ao fundo, o Nexus Soho permanecia brilhando em tons de ciano. Suspirou, bocejou, estava morto. Foi até seu carro, pegando novamente seu segundo celular e enviando uma mensagem avisando que já fez o que devia.Na manhã seguinte, Donggwon voltaria ao Sekai Silent Floor, colocaria um terno impecável e passaria o dia aconselhando executivos sobre reputação e imagem. Ninguém precisaria saber que, poucas horas antes, ele havia acabado de resolver um problema para a Kkangpae.
OO2: SOHO EXCHANGE
TRIGGER WARNING: N/A
Donggwon percebeu Yusuf antes mesmo de precisar ser apresentado, era difícil não perceber o mini adulto andando como se estivesse ali para negócios.Entre os jovens escolhidos para o Soho Exchange, ele era provavelmente o que mais parecia ter se preparado para estar ali. Enquanto alguns chegavam com a curiosidade típica de quem ainda tentava entender o que fazia em um coworking corporativo de alto padrão, Yusuf parecia ter decidido, desde o primeiro minuto, que aquela semana seria uma oportunidade que não pretendia desperdiçar.O terno, embora claramente herdado, estava bem cuidado. A postura era impecável, seu cabelo estava arrumado e havia nos olhos do garoto uma inquietude, parecia procurar a próxima pessoa importante com quem deveria conversar.No primeiro dia, Donggwon explicou apenas o necessário. O funcionamento do andar, as áreas permitidas, os horários, as regras de circulação e, principalmente, aquilo que um aprendiz não deveria tocar.Yusuf ouviu tudo……Ou pelo menos pareceu ouvir.Na prática, passou boa parte daquela primeira manhã observando os empreendedores que ocupavam o Sekai Silent Floor. Prestava atenção nos relógios caros, nos computadores abertos sobre as mesas, nos documentos deixados ao lado das máquinas de café e, principalmente, na maneira como aquelas pessoas conversavam.Donggwon percebeu rapidamente que o que fazia os olhos do jovem brilharem era o acesso ao mundo que existia ali dentro. Yusuf parecia querer entender como aquelas pessoas haviam chegado ali e, mais importante, como poderia chegar também.Na terça-feira, já estava muito mais à vontade. Começou a decorar nomes, cargos e empresas. Aprendeu rapidamente quem era investidor, quem era fundador, quem trabalhava para quem e quem parecia ter influência suficiente para conseguir uma reunião sem precisar agendá-la.Também começou a entregar cartões.Não eram cartões oficiais do Sekai Silent Floor, evidentemente. Eram cartões pessoais improvisados, feitos para parecerem profissionais o suficiente para sustentar a pequena mentira de que ele já possuía algum tipo de atuação naquele universo.Donggwon encontrou um deles sobre o balcão naquela tarde e guardou.Yusuf ainda não tinha entendido que, naquele tipo de ambiente, um cartão de visitas não valia absolutamente nada se a pessoa que o recebesse não tivesse motivo para lembrar de quem o entregou. Mesmo assim, havia alguma coisa admirável em sua ousadia.Na quarta-feira, a rotina deixou de ser apenas observação. Yusuf começou a tentar compreender como as reuniões funcionavam, queria saber como os empreendedores apresentavam propostas, como falavam sobre investimentos e como transformavam uma ideia em algo que pudesse ser vendido. Até mesmo permitiu que participasse de pequenas tarefas administrativas, desde que permanecesse dentro dos limites estabelecidos pelo programa.Mas havia uma diferença importante entre aprender a fazer negócios e acreditar que já se sabia fazê-los.Naquela tarde, ele conseguiu uma sala privativa, conseguiu também um horário na agenda de um visitante real. Quando Donggwon descobriu, Yusuf já estava sentado diante do homem, apresentando uma ideia própria com a confiança de alguém que havia passado os últimos dez anos fazendo aquilo.Donggwon simplesmente entrou na sala, assumiu o controle da conversa e encerrou a reunião para fazer parecer que aquilo havia sido apenas um mal-entendido administrativo.Só depois, longe do visitante, veio a repreensão. Yusuf tinha ambição suficiente para entrar naquela sala, o que lhe faltava era disciplina para saber quando ainda não estava pronto para permanecer nela.Na quinta-feira, Donggwon mudou a forma como o tratava e não o deixou simplesmente acompanhar a rotina, passou a colocá-lo diante de pequenas situações em que precisava observar antes de agir, como identificar alguém realmente importante em uma sala cheia de pessoas importantes. Yusuf aprendeu mais naquele dia do que havia aprendido nos anteriores.Talvez porque, pela primeira vez, tivesse percebido que o mundo corporativo não era feito apenas de pessoas bem vestidas, cartões de visita e salas de vidro.ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ═════════════════════════════════════════════════A rotina de Donggwon raramente permitia espaço para imprevistos.Mesmo com a movimentação diferente daquela semana, com adolescentes circulando pelo espaço e uma programação pensada justamente para aproximá-los da rotina corporativa, ele ainda precisava manter o funcionamento do andar dentro do padrão habitual. Reuniões continuavam acontecendo, documentos precisavam ser organizados, horários eram cumpridos e cada sala deveria estar pronta para ser utilizada quando necessário.Saoirse Byrne havia sido colocada sob sua supervisão durante uma das rotações.Quinze anos, silenciosa, discreta e aparentemente sem grandes dificuldades de adaptação. Donggwon não precisou gastar muito tempo explicando o básico. Mostrou os horários, indicou as áreas que poderiam ser acessadas, explicou o funcionamento das salas compartilhadas e delegou as tarefas mais simples de apoio: conferir materiais, organizar documentos, verificar salas após o uso e auxiliar na circulação do andar.Era o tipo de trabalho que parecia insignificante até que alguma coisa saísse do lugar.Durante boa parte do dia, ele quase não precisou interferir. Saoirse simplesmente fazia o que havia sido pedido, não procurava conversa, não demonstrava curiosidade excessiva e não precisava ser lembrada constantemente de onde determinada coisa deveria estar. Para Donggwon, aquilo era conveniente.Até o momento em que, já no final do expediente, percebeu que havia deixado um pequeno dispositivo de armazenamento sobre a mesa de uma das salas privativas.O pen drive não deveria estar ali.Não porque fosse incomum carregar documentos importantes consigo, mas porque aquele especificamente continha informações que não deveriam circular fora de determinados computadores. Havia planos, projeções e estratégias que ainda não haviam sido divulgadas nem internamente para todos os funcionários.Donggwon só percebeu a ausência quando retornou à mesa. Procurou primeiro entre os documentos, depois nas gavetas, conferiu a bolsa, o computador e os bolsos do casaco… Nada.A lembrança veio então, acompanhada de uma irritação discreta. Antes que pudesse voltar até a sala, ouviu passos leves no corredor. Saoirse apareceu alguns minutos depois e ela não parecia apressada, apenas caminhou até a mesa dele e colocou o pen drive sobre a superfície, exatamente ao lado do computador.Havia algo na forma em que o pendrive foi colocado ali que o fez prestar atenção. Saoirse permaneceu parada diante da mesa por alguns segundos antes de falar, disse apenas que havia encontrado o dispositivo enquanto organizava a sala.Donggwon pegou o pen drive entre os dedos. A princípio, não havia motivo para suspeitar de nada. Ela poderia simplesmente ter feito o correto: encontrado um objeto perdido e devolvido ao responsável, mas então veio a segunda parte.Ela mencionou, com a mesma tranquilidade, que sabia o que havia dentro.Donggwon ficou em silêncio e a observou por alguns segundos, tentando decidir se estava diante de uma adolescente querendo provocar uma reação, de alguém imprudente que não compreendia a gravidade daquilo ou de uma garota que simplesmente havia percebido uma oportunidade de testar os limites de quem estava supervisionando-a.Naquele instante, a situação deixou de ser sobre um objeto perdido e tornou-se uma falha de segurança. E, antes mesmo de pensar no que fazer com Saoirse, ele pensou no erro que havia cometido, não deveria ter deixado aquilo ali e nem deveria ter presumido que uma sala vazia significava uma sala segura.E, principalmente, não deveria ter subestimado a facilidade com que uma pessoa aparentemente invisível poderia observar uma rotina inteira sem chamar atenção. Apenas fechou o notebook e passou a encará-la com uma atenção que não havia demonstrado durante o restante do dia.Pela primeira vez desde o início da rotação, Donggwon deixou de enxergá-la apenas como uma adolescente encarregada de pequenas tarefas administrativas.